Justiça / Investigação federal
PF apura possível conexão financeira entre filme sobre Bolsonaro e estrutura ligada ao PCC
Investigação analisa repasse de R$ 28 milhões feito pela financiadora de “Dark Horse” a uma empresa apontada como integrante de rede de lavagem de dinheiro.
16/07/2026
19:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A Polícia Federal (PF) abriu uma nova linha de investigação para apurar uma possível conexão financeira entre a produção de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e uma estrutura de lavagem de dinheiro supostamente utilizada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo informações publicadas pelo portal Metrópoles, a apuração tem como ponto de partida um repasse de R$ 28 milhões realizado pela Entre Investimentos e Participações à empresa ACX ITC Tecnologia. A ACX é apontada em investigação da Polícia Civil de São Paulo como integrante de uma rede financeira ligada à facção criminosa.
A Entre Participações teria sido utilizada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, para financiar o filme sobre Bolsonaro, protagonizado pelo ator norte-americano Jim Caviezel.
Os pagamentos para a ACX ITC Tecnologia teriam ocorrido entre fevereiro e abril de 2025, período que coincide com parte dos repasses destinados ao projeto cinematográfico.
As movimentações financeiras foram identificadas em um inquérito do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), aberto a partir da Operação Saturno, deflagrada pela Polícia Civil paulista.
O procedimento foi encaminhado à Polícia Federal há menos de duas semanas e passou a integrar as apurações da Operação Compliance Zero, que investiga operações relacionadas ao Banco Master.
A investigação federal também abrange um acordo estimado em R$ 134 milhões entre Daniel Vorcaro e o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), supostamente relacionado ao financiamento de “Dark Horse”.
O objetivo dos investigadores é verificar se todo o dinheiro previsto no acordo foi efetivamente utilizado na produção do filme ou se parte dos recursos teve outras destinações ligadas ao grupo político do senador.
Uma das principais frentes da apuração envolve a análise das quebras de sigilo bancário e fiscal da Entre Investimentos e Participações, já autorizadas e obtidas pela Polícia Civil de São Paulo.
De acordo com a reportagem, a PF pretende rastrear o caminho dos recursos e identificar os beneficiários finais das transferências. A empresa teria sido usada por Vorcaro em negócios nos quais ele não aparecia formalmente, além de prestar serviços a outros empresários.
A investigação também apura a atuação de Antônio Carlos Freixo Júnior, proprietário formal da Entre Participações, que é suspeito pelos investigadores de operar como doleiro.
Caso os dados já disponíveis não sejam suficientes, a PF deverá solicitar novas informações às instituições financeiras. Eventuais medidas adicionais dependerão de autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da investigação relacionada ao financiamento do filme.

A possível relação entre o filme, a empresa financiadora e o PCC ainda está sob apuração e não significa, até o momento, que os envolvidos tenham mantido negócios diretos com a facção.
Uma das hipóteses analisadas é que diferentes grupos ou empresários possam ter utilizado a mesma estrutura clandestina de movimentação e lavagem de recursos, sem necessariamente manter relações comerciais ou criminosas entre si.
Essa dinâmica, tratada pelos investigadores como parte da chamada “economia do crime”, envolve estruturas financeiras que prestariam serviços ilegais a diferentes clientes.
A análise das movimentações bancárias deverá indicar se houve apenas o compartilhamento de intermediários financeiros ou uma conexão mais direta entre os negócios investigados.
Segundo a apuração jornalística, a negociação para financiar “Dark Horse” teria sido realizada em dólares e alcançaria aproximadamente R$ 134 milhões em valores atualizados.
Os pagamentos estavam previstos para ocorrer entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, mas teriam sido feitos somente entre fevereiro e maio de 2025, totalizando cerca de R$ 61 milhões.
O dinheiro teria saído da Entre Participações e sido enviado a um fundo sediado nos Estados Unidos, ligado a um dos irmãos de Flávio Bolsonaro.
A PF agora busca esclarecer a destinação dos valores e verificar se os recursos seguiram integralmente para a produção cinematográfica.
A assessoria de Flávio Bolsonaro não comentou a abertura da nova frente de investigação. O senador também não respondeu se houve novos pedidos de recursos a Daniel Vorcaro após a primeira prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025.
A Entre Participações, Daniel Vorcaro e a ACX ITC Tecnologia também não apresentaram explicações detalhadas sobre a natureza dos repasses.
Em manifestação citada pela reportagem, a Entre declarou apenas que atua em conformidade com as normas e mantém compromisso com a integridade. Até o momento, a apuração está em andamento e não há conclusão pública da PF sobre eventual participação criminosa dos citados.
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