Economia / Comércio Exterior
EUA devem anunciar novas tarifas contra produtos brasileiros nesta quarta-feira
Governo brasileiro aguarda decisão de Washington e avalia resposta pela Lei da Reciprocidade ou manutenção das negociações diplomáticas
15/07/2026
17:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Representantes do governo dos Estados Unidos comunicaram ao governo brasileiro, na manhã desta quarta-feira (15), que a decisão sobre a aplicação de novas tarifas contra produtos do Brasil deverá ser anunciada durante a tarde.
A expectativa é de que o governo do presidente Donald Trump imponha uma tarifa adicional de 25% sobre mais de 4 mil produtos brasileiros, responsáveis por aproximadamente US$ 15 bilhões em exportações anuais. Entre os setores potencialmente afetados estão açúcar, ferro-gusa, tabaco e etanol.
Após a divulgação oficial, integrantes do Palácio do Planalto deverão analisar o alcance das medidas, os produtos atingidos e as possíveis exceções antes de definir a reação brasileira.
Entre as alternativas avaliadas estão o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica e a continuidade das negociações diplomáticas com o governo norte-americano.
A legislação permite que o Brasil adote medidas proporcionais contra países que imponham restrições comerciais unilaterais aos produtos brasileiros. A eventual aplicação, no entanto, dependerá da análise técnica e política do anúncio norte-americano.
Três temas concentraram os principais impasses nas conversas entre representantes dos dois países: o funcionamento do PIX, o acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e as regras tributárias e judiciais aplicadas às plataformas digitais.
A investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, inclui questionamentos sobre comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, mercado de etanol e desmatamento.
Segundo interlocutores do governo brasileiro, os norte-americanos também defenderam uma moratória que impediria, por quatro anos, a cobrança de tributos e multas contra empresas responsáveis por plataformas digitais.
A proposta teria sido rejeitada pelo Brasil. O entendimento do governo é de que aceitar a medida criaria um tratamento privilegiado para companhias estrangeiras e reduziria a capacidade de fiscalização das autoridades brasileiras.
No caso do PIX, autoridades norte-americanas sustentam que a infraestrutura criada pelo Banco Central favoreceria o sistema público em detrimento de empresas privadas do setor financeiro.
O governo brasileiro contesta essa interpretação e afirma que o PIX é uma infraestrutura pública aberta à participação de instituições brasileiras e estrangeiras que atendam às exigências regulatórias.
O Brasil também argumenta que empresas dos Estados Unidos operam regularmente no sistema e compara o PIX ao FedNow, serviço de pagamentos instantâneos administrado pelo Federal Reserve, o banco central norte-americano.
Em audiência realizada no início de julho, o próprio senador Flávio Bolsonaro defendeu o sistema brasileiro e afirmou que o PIX representa uma inovação positiva, apesar das críticas apresentadas pelo governo Trump.
Outro ponto de conflito envolve as tarifas brasileiras aplicadas ao etanol importado.
Os Estados Unidos alegam que as mudanças tarifárias adotadas pelo Brasil reduziram a competitividade do combustível norte-americano. Conforme documento do USTR, as exportações de etanol dos EUA para o mercado brasileiro caíram de um pico de US$ 761 milhões, em 2018, para US$ 96 milhões, em 2025.
O governo brasileiro sustenta que a tarifa não é direcionada especificamente aos Estados Unidos e segue as mesmas regras aplicadas a outros países que não possuem acordos comerciais preferenciais com o Brasil.
De acordo com integrantes das negociações, Washington teria solicitado condições tarifárias exclusivas para determinados produtos norte-americanos. O Brasil argumentou que a legislação nacional não permite a concessão unilateral desse tipo de benefício a apenas um país.
As determinações da Justiça brasileira envolvendo redes sociais e plataformas digitais também fazem parte das divergências.
O governo norte-americano critica ordens para remoção de publicações e suspensão de perfis, sob o argumento de que as decisões poderiam restringir a liberdade de expressão e prejudicar empresas dos Estados Unidos.
O Brasil responde que as medidas foram adotadas em processos judiciais regulares, relacionados a investigações criminais, proteção de direitos fundamentais e integridade do processo eleitoral.
A posição brasileira é de que as regras são aplicadas de forma igualitária a empresas nacionais e estrangeiras, sem discriminação comercial.
Segundo representantes brasileiros envolvidos nas conversas, as negociações registraram avanços iniciais, mas o governo norte-americano passou a adotar uma postura mais rígida a partir de maio.
Nas últimas semanas, foram realizadas diversas reuniões técnicas, incluindo seis ou sete encontros apenas no último mês, mas os dois governos não conseguiram chegar a um acordo.
Há cerca de dez dias, negociadores brasileiros apresentaram propostas relacionadas aos pontos levantados pelo USTR. Entre os temas estavam comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol e questões ambientais.
Mesmo com as tratativas, integrantes do governo consideram improvável um novo adiamento da decisão norte-americana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou seus auxiliares a manterem o Brasil na mesa de negociação e a evitarem que divergências ideológicas contaminem as conversas.
A avaliação no Planalto, entretanto, é de que a recomendação pela aplicação das tarifas possui forte componente político, embora tenha sido formalmente baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
A reação brasileira será definida depois da publicação oficial da decisão pela Casa Branca ou pelo USTR.
O governo deverá verificar o percentual definitivo, a lista de produtos, a data de entrada em vigor e as mercadorias que eventualmente permanecerão isentas.
Informações preliminares indicam que itens importantes da pauta exportadora, como carne bovina, café, peças de aeronaves e alguns minerais, podem ficar fora da nova cobrança.
Caso as medidas sejam consideradas desproporcionais, o Brasil poderá iniciar os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica. A diplomacia brasileira, porém, deverá manter abertos os canais de negociação com Washington.
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