Campo Grande (MS), Sexta-feira, 03 de Julho de 2026

Política / Investigação

Nome de Alexandre Ramagem aparece em planilha apreendida na Operação Unha e Carne

Documento atribuído ao bicheiro Adilsinho cita quatro depósitos ligados a “DEP RAMAGEM” e “DEP ALEXANDRE RAMAGEM”

03/07/2026

18:10

G1

DA REDAÇÃO

©ARQUIVO

O nome do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, do PL-RJ, aparece em uma planilha apreendida pela Polícia Federal nesta quinta-feira, 2 de julho, durante a 5ª fase da Operação Unha e Carne. A investigação apura supostos esquemas de lavagem de dinheiro ligados à cúpula do jogo do bicho e possíveis conexões com agentes públicos do Rio de Janeiro.

Apesar da citação no material recolhido, Ramagem não foi alvo dos mandados cumpridos nesta etapa da operação. Segundo as informações divulgadas, ele figura entre os nomes investigados a partir dos documentos apreendidos, enquanto a Polícia Federal aprofunda a análise dos dados.

A planilha foi encontrada no âmbito das investigações envolvendo Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, apontado como bicheiro e alvo de mandado de prisão na operação, embora já estivesse preso. O documento reuniria registros de supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações relacionadas à lavagem de dinheiro.

No arquivo identificado como “planilha 2”, aparecem quatro lançamentos atribuídos a um cliente descrito como “DEP RAMAGEM” e “DEP ALEXANDRE RAMAGEM”. Não há, nas informações divulgadas, indicação do ano dos depósitos, apenas mês, dia e valores.

Os registros citados são:

02/09, DEP RAMAGEM, R$ 39.708,00

06/09, DEP RAMAGEM, R$ 30.000,00

21/09, DEP ALEXANDRE RAGEM, R$ 18.100,00

29/09, DEP ALEXANDRE RAMAGEM, R$ 22.080,00

A reportagem informou ter procurado a assessoria de Alexandre Ramagem e aguardava posicionamento. Até o momento citado no texto original, não havia manifestação do ex-deputado.

Ramagem foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, durante o governo de Jair Bolsonaro, e depois se elegeu deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ele perdeu o mandato e foi demitido do cargo de delegado da Polícia Federal após condenação pelo Supremo Tribunal Federal.

O ex-deputado foi condenado pelo STF a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão em regime fechado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.

Segundo as informações divulgadas, Ramagem deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos no mês em que foi condenado. O governo brasileiro encaminhou pedido de extradição, enquanto ele apresentou solicitação de asilo político, ainda em análise pelo governo norte-americano.

Outro nome citado na lista atribuída a Adilsinho é o do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, também do PL. A apuração aponta menção a uma suposta doação de R$ 3,2 milhões para o então candidato.

Cláudio Castro governou o Rio de Janeiro de 2021 a 2026 e concorreu à reeleição em 2022. Ele renunciou um dia antes do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, que determinaria sua cassação e inelegibilidade.

Assim como Ramagem, Castro não foi alvo da operação desta quinta-feira. Em nota, a defesa dele afirmou ser “mentirosa qualquer ilação” de que o ex-governador tenha recebido pagamentos de Adilsinho. Os advogados também sustentaram que uma citação ao nome de Castro não comprova recebimento de valores, irregularidade eleitoral ou prática de ato ilícito.

A 5ª fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada para investigar lavagem de dinheiro, atuação do jogo do bicho e possíveis vínculos com integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro.

Na ação, o pastor e empresário Márcio Poncio foi preso preventivamente em um flat na Barra da Tijuca. Ele é investigado por suposta ligação com a chamada “Máfia do Cigarro”.

Além de Poncio, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, expediu mandados de prisão contra Adilsinho e contra o ex-deputado Rodrigo Bacellar, que já estavam presos em razão de fases anteriores da mesma investigação.

A decisão judicial também determinou o sequestro de bens e valores de até R$ 22 milhões. A medida tem como base planilhas da Operação Fumus, de 2021, que indicariam pagamentos indevidos e supostas “mesadas” a pelo menos 20 políticos do Estado.

A nova fase da investigação deriva de determinação do STF no âmbito da ADPF das Favelas, que ordena a apuração de vínculos entre grupos criminosos e agentes públicos.

Nas etapas anteriores, a Operação Unha e Carne investigou o vazamento de informações sigilosas para a facção Comando Vermelho, o escândalo da Ceperj e fraudes em contratações na Secretaria Estadual de Educação.

As apurações também envolveram nomes como o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto e o deputado Thiago Rangel, em uma linha investigativa que aponta para possível rede de proteção institucional ao crime organizado.

A chamada “Máfia do Cigarro”, atribuída a Adilsinho, é descrita pela investigação como um esquema de controle da venda de cigarros falsificados em quase metade dos municípios do Rio de Janeiro, com prejuízos bilionários em sonegação fiscal.

A defesa de Márcio Poncio afirmou que ainda não teve acesso aos autos. Já a defesa de Adilsinho negou o pagamento de vantagens indevidas a políticos.

A citação de nomes em planilhas apreendidas não representa, por si só, comprovação de crime. A partir do material recolhido, caberá à Polícia Federal cruzar dados, verificar a origem dos registros e apontar se há elementos suficientes para responsabilização criminal ou eleitoral.


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