Política / Eleições 2026
Mercado pressiona por alternativa a Flávio Bolsonaro e vê espaço para Caiado
Executivos e gestores ouvidos pela Folha avaliam que candidatura do PL limita a reorganização da direita e amplia as chances de reeleição de Lula
27/07/2026
09:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Parte do mercado financeiro passou a defender a substituição de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por um nome considerado mais previsível e capaz de ampliar alianças na disputa pela Presidência. Entre as alternativas citadas por executivos, economistas e gestores da Faria Lima, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), aparece como o principal beneficiado por uma eventual retirada do senador.
A avaliação foi relatada pela Folha de S.Paulo, com base em conversas reservadas com integrantes do setor financeiro. Embora a região seja tradicionalmente crítica à política econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a resistência ao atual candidato do PL impede uma adesão automática ao principal adversário do petista.
Flávio foi confirmado pelo partido para disputar a eleição durante convenção realizada no último fim de semana, em São Paulo. A campanha, porém, ainda enfrenta dificuldades para atrair partidos de centro, definir um candidato a vice e reduzir as tensões internas do campo bolsonarista.
Para os interlocutores ouvidos pela reportagem, o senador mantém competitividade nas pesquisas, mas demonstra pouca capacidade de ampliar sua base para além do eleitorado mais identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro. A preocupação é que sua permanência na disputa impeça o crescimento de outros candidatos de direita e centro-direita.
Além de Caiado, são mencionados o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o empresário Renan Santos (Missão). No caso de Caiado, pesam favoravelmente, segundo esse grupo, o discurso de responsabilidade fiscal e a imagem construída na área de segurança pública.
A leitura do mercado é reforçada pelos levantamentos eleitorais mais recentes. Pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, 27 de julho, mostra Lula com 47% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro.
Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os dois aparecem tecnicamente empatados no limite do intervalo, embora o presidente mantenha vantagem numérica. No primeiro turno, Lula registra 42%, enquanto Flávio soma 33%.
O senador também enfrenta desgaste provocado por investigações e questionamentos sobre suas relações políticas e financeiras. As dificuldades são acompanhadas por problemas na formação de alianças e pelo recente conflito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, liderança com influência entre mulheres conservadoras e evangélicas.
Na visão de agentes financeiros citados pela Folha, a campanha do PL tem adotado mais frequentemente uma postura de confronto do que de negociação. A estratégia dificultaria a aproximação com partidos necessários para ampliar o tempo de propaganda, a estrutura regional e a presença eleitoral fora da base bolsonarista.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), continua sendo tratado por parte do mercado como o nome preferido para enfrentar Lula. Sua ausência da disputa, no entanto, levou bancos, gestoras e investidores a procurar outras candidaturas capazes de reunir o eleitorado contrário ao PT.
A preocupação eleitoral aparece em meio ao aumento da percepção de risco sobre as contas públicas. A dívida bruta brasileira chegou a 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em maio, com projeções oficiais indicando continuidade da trajetória de alta nos próximos anos.
As taxas oferecidas pelos títulos públicos também permanecem elevadas. Em julho, papéis do Tesouro IPCA+ chegaram a pagar inflação mais cerca de 8% ao ano, enquanto títulos prefixados se aproximaram de 15%, níveis associados à incerteza fiscal, às expectativas de inflação e à política monetária.
Parte dos analistas interpreta esse cenário como sinal de que os preços dos ativos já incorporam uma possibilidade relevante de reeleição de Lula e de manutenção da atual orientação econômica. Essa leitura, no entanto, não é consensual.
Outro grupo avalia que a eleição ainda exerce influência limitada sobre o mercado, atualmente mais concentrado nos conflitos internacionais, no preço do petróleo, nas commodities e nas decisões dos bancos centrais.
Até que as candidaturas consolidem suas alianças e propostas econômicas, a disputa pela preferência do setor financeiro continuará aberta. A permanência de Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula, contudo, mantém divididos até mesmo segmentos que tradicionalmente se posicionam contra o PT.
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