Brasil / Diplomacia
Lula reage a tarifaço dos EUA e diz que Brasil não aceitará pressão política
Em artigo no Washington Post, presidente chamou sobretaxas de erro estratégico e afirmou que decisões brasileiras não serão submetidas a interesses externos
26/07/2026
15:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Brasil não aceitará o uso das relações econômicas com os Estados Unidos como instrumento de pressão política ou de interferência no processo eleitoral. A manifestação foi publicada neste domingo, 26 de julho, em artigo no jornal norte-americano The Washington Post.
No texto, Lula criticou as novas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos aos produtos brasileiros e classificou a medida como um erro estratégico, com potencial para prejudicar as economias dos dois países e enfraquecer uma parceria comercial construída ao longo de décadas.
“Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais não se sustentam”, escreveu.
O presidente também reagiu às declarações de integrantes do governo norte-americano sobre o Brasil e afirmou que o país não será constrangido por informações falsas.
“Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, declarou.
O artigo foi publicado em meio a um novo episódio de desgaste entre os dois governos. O Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam viajar ao Brasil.
Segundo o governo brasileiro, a visita teria como objetivo questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral. O Departamento de Estado, por sua vez, negou qualquer intenção de interferir nas eleições brasileiras.
A possibilidade da viagem foi revelada inicialmente pelo próprio Washington Post. Conforme a reportagem, os representantes norte-americanos pretendiam discutir dúvidas relacionadas ao sistema brasileiro de votação.
Para o governo Lula, qualquer iniciativa externa destinada a pressionar autoridades ou colocar em dúvida o processo eleitoral representa uma tentativa indevida de interferência em assuntos internos.
As novas medidas comerciais dos Estados Unidos podem elevar a tributação sobre determinados produtos brasileiros a 37,5%, resultado da combinação de uma tarifa de 25% com uma sobretaxa adicional de 12,5%.
Lula argumentou que a decisão afetará setores produtivos nos dois países. Segundo ele, empresas norte-americanas dependem de insumos fornecidos pelo Brasil, e o encarecimento dessas importações poderá ser repassado aos consumidores dos Estados Unidos.
“No médio prazo, essas tarifas vão levar à desorganização de cadeias produtivas que hoje se encontram densamente integradas”, afirmou.
O presidente acrescentou que empresas brasileiras poderão substituir fornecedores norte-americanos por parceiros de outros mercados caso as restrições comerciais sejam mantidas.
De acordo com Lula, as exportações brasileiras para os Estados Unidos já estão no menor nível desde 1997, quadro que poderá se agravar com as novas barreiras.
No artigo, Lula afirmou que buscou negociar diretamente com o presidente norte-americano Donald Trump e que integrantes do governo brasileiro participaram de dezenas de reuniões com autoridades dos Estados Unidos.
Mesmo após a apresentação de argumentos econômicos e técnicos, as tarifas foram mantidas. Para o presidente brasileiro, a medida ignora a interdependência entre as duas economias e poderá comprometer investimentos, empregos e relações comerciais.
Lula defendeu a retomada do diálogo, mas afirmou que qualquer negociação precisa ocorrer com respeito à soberania nacional e sem condicionamentos de natureza política.
O presidente também declarou que a América Latina precisa de parceiros confiáveis e previsíveis, em vez de sanções econômicas, vigilância ou demonstrações de força militar.
Segundo Lula, quando os Estados Unidos restringem o acesso ao seu mercado, outras economias passam a ocupar esse espaço e a oferecer novas oportunidades de comércio e investimento aos países latino-americanos.
O presidente afirmou que o Brasil permanece disposto a dialogar com Washington, mas reforçou que as decisões sobre os rumos políticos e econômicos do país pertencem exclusivamente aos brasileiros.
“Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa nem subserviência”, concluiu.
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