Política / Congresso
Projeto contra supersalários segue parado no Senado enquanto Dino pressiona por regulamentação
Texto aguarda há quase cinco anos na CCJ sob relatoria de Eduardo Gomes; STF cobra lei para limitar “penduricalhos”
22/02/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O projeto que pretende limitar os chamados “supersalários” no funcionalismo público permanece parado no Senado Federal, apesar da recente pressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, para que o Congresso aprove legislação que regulamente o pagamento de verbas indenizatórias — conhecidas como “penduricalhos”.
A proposta mais antiga sobre o tema tramita há quase uma década e está há cerca de cinco anos na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, sob relatoria do senador Eduardo Gomes (PL-TO), aliado do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). Até o momento, não foi apresentado relatório.
Em decisão recente, Dino estabeleceu prazo de 60 dias para que órgãos dos três Poderes publiquem a lista detalhada de verbas remuneratórias e indenizatórias pagas, com indicação expressa das normas que as fundamentam.
O ministro afirmou que, caso o Congresso mantenha a omissão legislativa, caberá ao STF examinar a adoção de um regime transitório para conter pagamentos acima do teto constitucional. Para Dino, a ausência de regulamentação configura “violação massiva à Constituição”.
O teto do funcionalismo público corresponde ao salário dos ministros do STF, atualmente fixado em cerca de R$ 46 mil.
O texto foi aprovado pelo Senado em 2016, durante a presidência de Renan Calheiros (MDB-AL), que articulou a proposta como uma das prioridades da Casa. Na ocasião, o projeto reafirmava o limite constitucional e estabelecia critérios para definir quais verbas indenizatórias poderiam permanecer fora do teto.
Entre as exceções previstas estavam auxílio-alimentação, auxílio-transporte, diárias de viagem e ajuda de custo para mudança de local de trabalho, entre outros.
Em 2021, a Câmara dos Deputados aprovou a matéria, mas promoveu alterações significativas. A lista de verbas autorizadas fora do teto foi ampliada para 32 itens, e gratificações por função foram excluídas da contabilização. As mudanças obrigaram o retorno do texto ao Senado, onde a tramitação perdeu força.
O atual presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), afirmou que a análise depende exclusivamente da apresentação de parecer pelo relator. “Ele apresentando relatório, nós pautaremos para a análise da CCJ”, declarou.
Nos bastidores, parlamentares avaliam que o tema enfrenta resistência por ser considerado politicamente sensível, especialmente em ano pré-eleitoral. Senadores próximos a Alcolumbre afirmam que a prioridade tem sido evitar pautas polêmicas que possam gerar desgaste.
O combate aos supersalários chegou a ser listado como prioridade pela equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas as tentativas de avançar na regulamentação encontraram falta de consenso no Congresso.
A decisão de Dino também impacta diretamente propostas aprovadas pela Câmara que reajustavam salários e reformulavam gratificações no Legislativo, cujos efeitos poderiam ultrapassar o teto constitucional. Trechos dessas medidas foram vetados por Lula.
Com a determinação do STF, fica inviabilizada, na prática, a retomada imediata dessas parcelas por meio de eventual derrubada de veto, uma vez que o pagamento de novas verbas indenizatórias está condicionado à existência de lei específica.
O impasse mantém em aberto um debate que se arrasta desde 2016, envolvendo equilíbrio fiscal, autonomia dos Poderes e limites constitucionais à remuneração no serviço público.
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