Economia / Investigação
PF aponta semelhanças entre suposto esquema no Digimais e caso Banco Master
Banco ligado a Edir Macedo teria usado CDBs acima do mercado, ativos superavaliados e fundos sem auditoria completa, segundo investigação
23/06/2026
20:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A Polícia Federal apontou, na Operação Miragem, deflagrada nesta terça-feira (23), indícios de um suposto esquema fraudulento no Banco Digimais, instituição ligada ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV. Segundo a investigação, a forma de atuação teria semelhanças com práticas identificadas no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
De acordo com a PF, os investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros internos para ocultar a real situação financeira do Digimais. A suspeita é de que a instituição buscava aparentar solidez diante de órgãos de controle e investidores para viabilizar operações consideradas irregulares.
Em nota, o Banco Digimais informou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações. A instituição afirmou ainda que mantém compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a colaboração com os órgãos competentes.
Um dos pontos destacados no inquérito é a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade superior a 110% do CDI, taxa considerada acima da média de mercado. Segundo a investigação, esse tipo de captação acelerada também teria sido usado pelo Banco Master antes de sua liquidação pelo Banco Central.
Para a PF, a oferta de CDBs com remuneração elevada ajudava a atrair recursos de investidores em um momento de dificuldade financeira da instituição. A estratégia, conforme os investigadores, dependia da manutenção de balanços que transmitissem uma imagem de capacidade financeira superior à realidade.
Outro ponto investigado é a suposta superavaliação de ativos. A Polícia Federal cita, entre os exemplos, a precificação de títulos antigos da Vale em R$ 650 milhões, a avaliação de um terreno em Pernambuco por R$ 150 milhões, embora seu valor real fosse inferior a R$ 10 milhões, e a marcação de uma carteira de automóveis em R$ 3,5 bilhões.
Na avaliação dos investigadores, essas manobras teriam sido usadas para inflar o balanço do banco e dar lastro à emissão de novos CDBs. A PF também aponta a sucessiva troca de auditorias independentes como possível tentativa de evitar ressalvas que expusessem a situação financeira da instituição.
Segundo trecho da investigação, as práticas indicariam a possível estruturação de um conluio para maquiar um quadro de insolvência, com prejuízo potencial a investidores de varejo, ao órgão regulador e ao sistema de garantias de crédito.
A apuração também menciona o uso de fundos de investimento. O Digimais teria aplicado cerca de R$ 3 bilhões em fundos cujas demonstrações financeiras não puderam ser auditadas por falta de documentos. O valor representaria 73% do total investido nesse tipo de ativo, conforme alerta feito pela auditoria Clifton Larson Allen Brasil no balanço do segundo semestre de 2025.
Ainda segundo a auditoria, o banco comprou R$ 357,6 milhões em cotas de fundos de participação recém-criados no segundo semestre de 2025. Em poucos meses, essas aplicações passaram a ser avaliadas em R$ 997,5 milhões, uma valorização de 178%.
Esse salto gerou resultado positivo de R$ 639,8 milhões para o banco no semestre. A própria auditoria, no entanto, informou não ter conseguido avaliar a razoabilidade da operação ou eventuais ajustes, já que os fundos não possuíam demonstrações financeiras auditadas no momento da publicação do balanço.
A tentativa de venda do Digimais também aparece no contexto da investigação. Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, anunciou a aquisição da instituição mediante aporte de R$ 800 milhões. O negócio, porém, foi cancelado dois meses depois, em meio ao avanço das apurações sobre Quadrado.
Mesmo após o cancelamento, o banco continuou à venda. Para conduzir a reorganização da instituição e preparar uma eventual negociação, a administração passou ao comando de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil. O bispo Urbaneja permaneceu à frente do conselho de administração.
Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou acordo para adquirir o Digimais, informação confirmada em comunicado ao mercado. Procurado, o banco não comentou o caso.
A necessidade de venda estaria ligada à exigência de novo aporte de capital para cumprimento de regras de liquidez do Banco Central. Segundo estimativas mencionadas na investigação, seriam necessários mais de R$ 7 bilhões para cobrir o rombo da instituição.
O caso também se conecta ao Banco Master por meio de operações envolvendo carteiras de crédito. Cerca de R$ 600 milhões em carteiras da instituição de Daniel Vorcaro teriam sido vendidos ao próprio Digimais.
Com a Operação Miragem, a Polícia Federal aprofunda a apuração sobre a saúde financeira do banco e sobre possíveis manobras contábeis usadas para sustentar captações, valorizar ativos e tentar viabilizar a venda da instituição em meio a dificuldades financeiras.
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