Economia / Trabalho
Empresas chinesas trazem mais de mil trabalhadores por mês para o Brasil
Expatriados da China já representam 38% dos vistos de trabalho concedidos a estrangeiros no país; Bahia concentra maior parte dos registros
23/05/2026
23:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O avanço dos investimentos chineses no Brasil tem provocado também um aumento expressivo na chegada de trabalhadores vindos da China. Dados do Ministério da Justiça, compilados pela Folha, mostram que o país asiático lidera a emissão de vistos laborais para estrangeiros no Brasil, com média superior a mil autorizações por mês desde junho de 2025.
No primeiro trimestre deste ano, os cidadãos chineses receberam 3.193 autorizações de trabalho, dentro de um total de 8.232 vistos concedidos a estrangeiros. Com isso, passaram a representar 38% de todos os registros emitidos no período.
O crescimento é contínuo nos últimos anos. Em 2023, a média mensal era de 270 autorizações para trabalhadores chineses, menos de 8% do total. Em 2024, o número subiu para 625 por mês e chegou a 844 no ano passado, quando, pela primeira vez, o consolidado anual passou de 10 mil vistos.
A Bahia concentra a maior parte dos expatriados chineses que chegaram ao Brasil nos três primeiros meses deste ano. O Estado recebeu 55% dos trabalhadores, impulsionado principalmente pela instalação da fábrica da BYD em Camaçari.
A montadora chinesa responde por cerca de um terço dos registros. Desde o início do ano passado até o começo deste mês, 2.700 funcionários chineses da empresa obtiveram visto de trabalho no Brasil.
Segundo o vice-presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, a maioria dos profissionais permanece no país por períodos curtos, geralmente entre 90 e 120 dias, com foco em treinamento e transferência de tecnologia para trabalhadores brasileiros.
“Eles vêm para transferir tecnologia. Nós tivemos que construir uma indústria que não existia no Brasil”, afirmou o executivo.
De acordo com Baldy, o antigo parque industrial da Ford, em Camaçari, não servia ao processo produtivo da montadora chinesa, líder no segmento de veículos eletrificados.
A BYD aparece no topo da lista das empresas que mais trouxeram trabalhadores chineses ao Brasil desde 2025. Também figuram entre as principais contratantes a Falcão Engenharia, com 260 trabalhadores autorizados, a XCMG Brasil, fabricante de máquinas de construção, com 214, a Engenova Construções, com 197, e a montadora GWM, com 139.
Tanto a Falcão Engenharia quanto a Engenova Construções prestam serviços para a BYD nas obras do complexo industrial em Camaçari.
A chegada dos expatriados tem movimentado a economia local. Hotéis, imóveis para aluguel e serviços passaram a registrar maior demanda. Segundo o corretor Jorge Carvalho, de 62 anos, os trabalhadores chineses costumam buscar imóveis em bairros próximos à fábrica.
Além dos profissionais ligados à indústria e às terceirizadas, operários chineses também foram contratados para obras de um residencial com 600 apartamentos, localizado a cerca de 3,5 quilômetros da fábrica. O empreendimento deve abrigar trabalhadores da China e de outras cidades brasileiras.
A presença de mão de obra estrangeira também gerou debates trabalhistas. Na terça-feira, 19 de maio, sindicalistas realizaram piquete na entrada de uma obra em Camaçari, durante paralisação por aumento salarial e melhores condições de trabalho.
Entre operários baianos, há queixas de que trabalhadores locais estariam sendo preteridos em algumas contratações.
Em dezembro de 2024, o Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou 163 trabalhadores em situação considerada análoga à escravidão em obras da BYD. A montadora e duas empresas terceirizadas assinaram acordo de R$ 40 milhões com o MPT para encerrar a ação civil pública.
Alexandre Baldy afirmou que os trabalhadores eram contratados por prestadoras de serviço e que a BYD participou da solução do caso.
“Fomos parte da solução nesse processo. Nos antecipamos a decisões judiciais e providenciamos hospedagem e o retorno dos trabalhadores à China”, declarou.
A chegada de estrangeiros a Camaçari também virou tema de postagens nas redes sociais, algumas com informações falsas. Entre elas, publicações passaram a chamar o residencial ligado à BYD de “cidade chinesa”, inflando o número de operários estrangeiros.
Para Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, parte das reações tem caráter xenofóbico.
“É xenofobia. Quando a Ford veio para a Bahia, tinham americanos, canadenses, mexicanos, gente do Sudeste, e as pessoas não falavam isso”, afirmou.
Segundo o sindicalista, a maioria dos chineses na unidade da BYD ocupa funções administrativas ou técnicas, e poucos atuam diretamente no chão de fábrica.
Levantamento do Obmigra (Observatório das Migrações Internacionais), vinculado ao Ministério da Justiça, mostra que os chineses autorizados a trabalhar no Brasil atuam principalmente como operadores de time de montagem e técnicos especializados, incluindo manutenção de sistemas, máquinas e mecânica.
Os dados indicam ainda que 47% dos trabalhadores chineses que chegaram desde 2025 possuem ensino superior, enquanto 32% têm ensino médio.
Depois da Bahia, o segundo Estado com mais registros é São Paulo, onde se concentram escritórios de empresas chinesas e a fábrica da GWM, inaugurada em 2026.
A montadora informou que 9% de seus 1.800 funcionários no Brasil são chineses. Segundo a empresa, a maior parte atua em funções especializadas e temporárias, com foco na capacitação da mão de obra local.
A chegada de profissionais estrangeiros ocorre dentro das regras da legislação brasileira. Pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pelo menos dois terços dos empregados de uma empresa devem ser brasileiros. A mesma proporção vale para a folha salarial, que só pode destinar até um terço dos vencimentos a estrangeiros.
A legislação, porém, prevê flexibilizações em casos de insuficiência de mão de obra nacional qualificada. Segundo a advogada Luiza Neves Chang, coordenadora do China Desk do escritório Bichara Advogados, a presença de engenheiros e técnicos estrangeiros pode ser juridicamente justificada quando estiver ligada à assistência técnica, implantação industrial ou capacitação gradual de profissionais brasileiros.
“Nesses casos, a presença de engenheiros e técnicos estrangeiros tende a ser juridicamente justificável, especialmente quando vinculada à assistência técnica, implantação industrial ou capacitação gradual de profissionais brasileiros”, explicou.
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