Política
Direita brasileira tenta se reorganizar após prisão de Bolsonaro e enfrenta disputa interna por liderança
Centro-direita vive dilema entre romper com o bolsonarismo ou preservar laços eleitorais, enquanto crise expõe fragilidade estratégica do campo conservador
25/11/2025
10:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, somada à divulgação do vídeo em que ele admite ter tentado queimar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, provocou um abalo político imediato na direita brasileira. O episódio desmontou, em poucas horas, a narrativa de “injustiça” defendida por aliados e expôs uma crise ética e estratégica que atinge não apenas o bolsonarismo, mas também a centro-direita institucional, que há anos tenta se descolar de sua face mais radical sem romper com seu eleitorado.
A hesitação do presidente do PSD, Gilberto Kassab, durante evento da internacional da centro-direita (IDC-CDI), em São Paulo, simbolizou a perplexidade do campo político que por vezes apoiou Bolsonaro e agora enfrenta o desgaste da associação. A confissão gravada do ex-presidente transformou o caso em constrangimento nacional e obrigou lideranças conservadoras a reavaliar discursos e posicionamentos.
O discurso de Kassab em defesa da liberdade de imprensa e do repúdio a regimes totalitários contrastou com a remota proximidade de figuras que, em 2022 e 2023, mantiveram alinhamento com o projeto bolsonarista. Sua aposta na candidatura do governador Tarcísio de Freitas como nome mais competitivo para 2026 torna ainda mais evidente a contradição: Tarcísio, embora hoje apresentado como moderado, integrou o núcleo duro do governo que protagonizou ataques ao Estado democrático de Direito.
A centro-direita tenta, assim, reconstruir credibilidade sem alienar eleitores que ainda se identificam com o ex-presidente.
A crise também atingiu o senador Flávio Bolsonaro, até então considerado o filho mais articulado politicamente. Segundo analistas, sua atuação nos bastidores da crise da tornozeleira contribuiu para o aumento da percepção de risco de fuga e, consequentemente, para o endurecimento da decisão judicial.
Flávio, que vinha buscando se apresentar como liderança racional do bolsonarismo, viu sua estratégia ruir. O estopim da decisão do ministro Alexandre de Moraes colocou o senador no centro das discussões e desgastou suas pretensões futuras.
A prisão intensificou a disputa por herança política entre o bolsonarismo e setores do centrão, que enxergam em Tarcísio a possibilidade de reorganizar a direita para 2026. A reação do clã Bolsonaro, entretanto, foi imediata. Flávio classificou como “canalhas” aqueles que falam em sucessão antes da conclusão dos processos contra o pai, ampliando o racho interno.
Tentativas de resgatar a pauta da anistia — já enfraquecida — perderam qualquer viabilidade após o episódio da tornozeleira. A avaliação dominante entre líderes do centrão é de que o desgaste tornou inviáveis propostas de blindagem legislativa.
Após protestar contra a prisão no momento inicial, Tarcísio se recolheu quando o vídeo veio a público. A confissão gravada desmentiu a narrativa de erro técnico e expôs a fragilidade emocional do ex-presidente, tornando insustentável a defesa pública. Aliados buscaram explicar o episódio como “surto paranoico”, mas a estratégia serviu apenas para ampliar o desgaste.
Paralelamente, o campo conservador enfrenta pressões relacionadas ao escândalo do Banco Master, investigado por rombos e operações suspeitas com fundos públicos. Nomes ligados ao apoio a Tarcísio — como Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Cláudio Castro e Ibaneis Rocha — são questionados sobre o caso, elevando o custo político da articulação.
Um jantar em São Paulo reuniu Tarcísio, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Cláudio Castro e Eduardo Leite para discutir o futuro da direita. O encontro, embora informal, simboliza a movimentação para uma reorganização pós-Bolsonaro. Para o clã, porém, trata-se de uma traição prematura.
O cenário aponta para fragmentação. Sem unidade e com disputas internas, a direita pode chegar a 2026 com múltiplas candidaturas e sem liderança consolidada. Bolsonaro resiste a transferir apoio e acena com a possibilidade de lançar Flávio, movimento que dificultaria qualquer tentativa de convergência.
Como sintetiza o cientista político Luiz Werneck Vianna, “o populismo autoritário se desfaz de forma centrífuga quando perde o controle do poder”. É nesse processo que a direita brasileira se encontra: a dissolução do bolsonarismo ocorre sem que outro projeto tenha emergido com consistência.
O desafio da centro-direita é decidir se vai:
romper definitivamente com o bolsonarismo para reconstruir credibilidade democrática, ou
preservar o vínculo eleitoral, tornando-se cúmplice silenciosa da erosão institucional.
A hesitação, até aqui, indica que a resposta ainda está em disputa.
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