Política / Investigações
Escândalo do Banco Master expõe conexões políticas e amplia disputa entre governo e oposição
Investigações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro citam autoridades de diferentes espectros políticos e reacendem debate sobre eventual CPI no Congresso
10/03/2026
12:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O avanço das investigações sobre o Banco Master e seu fundador, o banqueiro Daniel Vorcaro, tem ampliado a repercussão política do caso ao envolver, direta ou indiretamente, lideranças da direita e da esquerda no cenário nacional. Desde a liquidação da instituição financeira no ano passado, diferentes nomes da política brasileira passaram a ser mencionados em apurações, documentos ou relações institucionais ligadas ao banco.
A situação ganhou novo capítulo após a prisão de Daniel Vorcaro na última quarta-feira (4), fato que intensificou a troca de acusações entre governistas e oposicionistas sobre possíveis vínculos com o empresário e seus negócios.
Entre os citados nas investigações ou em episódios relacionados ao banco aparecem parlamentares do Congresso Nacional, governadores, ex-ministros, prefeitos e autoridades do Judiciário, incluindo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, mencionados em discussões relacionadas ao caso.
Apesar da pressão política, a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o banco ainda não avançou. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já indicou que não pretende instalar a comissão no momento.
Documentos e mensagens analisados pelas autoridades indicam que Daniel Vorcaro manteve contatos com diversas figuras da política nacional, em diferentes contextos.
Entre os episódios citados nas investigações está a troca de mensagens em que o empresário menciona oferecer carona de helicóptero ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Interlagos em 2024. Na mesma conversa, também aparece referência ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito por Vorcaro como “grande amigo de vida”.
Ciro Nogueira apresentou no Congresso uma proposta que ficou conhecida como “emenda Master”, que previa elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em casos de liquidação de instituições financeiras. O senador afirma não ter mantido qualquer conduta irregular relacionada ao banco.
O escândalo também atingiu governos estaduais e fundos de previdência. No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) foi citado em investigações relacionadas a aplicações do Rioprevidência no Banco Master.
O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) também abriu apuração sobre investimentos realizados pela Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) na instituição financeira.
No Amapá, as investigações envolvem Jocildo Silva Lemos, ex-dirigente da Amprev (Amapá Previdência), indicado pelo governador Clécio Luís (União Brasil) após recomendação do senador Davi Alcolumbre. A Polícia Federal apura aplicações que chegaram a quase R$ 400 milhões em letras financeiras do banco.
O caso também alcançou figuras ligadas ao atual governo federal. O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que comandou a pasta entre 2006 e 2014, foi contratado como consultor do Banco Master. Segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Mantega intermediou um encontro entre o chefe do Executivo e Daniel Vorcaro, realizado em 2024 no Palácio do Planalto.
Lula afirmou que recebeu o empresário a pedido do ex-ministro e que, durante a reunião, o banqueiro alegou estar sendo alvo de perseguição. O presidente disse que o governo optaria por uma investigação técnica conduzida pelo Banco Central, sem interferência política.
O empresário esteve no Palácio do Planalto em outras ocasiões, com registros de entrada na Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação política do governo.
A rede de relações também inclui episódios ligados a campanhas eleitorais e atividades políticas.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou um avião associado a Vorcaro durante a campanha do então presidente Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022. O parlamentar afirmou posteriormente que não sabia quem era o proprietário da aeronave naquele momento.
Outro elo político envolve o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e maior doador da campanha de Bolsonaro em 2022, com R$ 3 milhões em contribuições. Zettel também foi preso recentemente, acusado pela Polícia Federal de integrar um grupo ligado ao banqueiro.
O mesmo pastor também realizou doação de R$ 2 milhões à campanha do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), na eleição de 2022.
Entre os profissionais que prestaram serviços ao Banco Master está o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que atuou como consultor da instituição após deixar a Corte em 2023, antes de assumir o Ministério da Justiça em 2024.
Mesmo após sua saída do escritório, a banca de advocacia ligada à família do ministro continuou prestando serviços ao banco até agosto de 2025.
Outro nome citado nas investigações é o do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, que comandava a autoridade monetária quando o Banco Master foi criado e expandiu suas operações. Ele afirma que o Banco Central emitiu alertas ao banco sobre irregularidades.
Na última semana, a Polícia Federal também realizou buscas relacionadas ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, que atuou entre 2019 e 2023. O ministro do STF André Mendonça afirmou que há indícios de que o ex-diretor teria atuado como consultor informal de Vorcaro.
As investigações também envolvem investimentos realizados por fundos previdenciários municipais, como o de Maceió (AL), que aplicou R$ 97 milhões em títulos do banco, além de apurações em outros municípios.
Com o avanço das operações da Polícia Federal, o escândalo do Banco Master passou a ocupar espaço central no debate político nacional, ampliando a pressão por esclarecimentos sobre relações institucionais, investimentos públicos e eventuais responsabilidades no caso.
O desfecho das investigações deverá definir eventuais responsabilidades administrativas, civis e criminais relacionadas à atuação do banco e às conexões políticas que vieram à tona durante o processo.
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