Política Nacional
Briga entre Malafaia, Damares e Valadão expõe rachas na liderança evangélica
Troca pública de acusações amplia divisões internas, envolve CPMI do INSS e impacta articulações eleitorais para 2026
25/01/2026
10:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A troca de farpas entre Silas Malafaia, Damares Alves (Republicanos-DF) e André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, escancarou divisões na cúpula evangélica e trouxe à tona disputas políticas, religiosas e eleitorais que devem influenciar o cenário de 2026.
O embate ganhou força após Damares Alves mencionar, sem citar nomes, a existência de “grandes igrejas” supostamente envolvidas em irregularidades investigadas pela CPMI do INSS. A fala provocou reação imediata de Silas Malafaia, que acusou a senadora de agir de forma irresponsável ao generalizar denúncias sem apontar responsáveis.
Em resposta, Damares divulgou nomes de igrejas e pastores sob apuração e ironizou o pastor, afirmando que ele deveria “orar um pouco”. Entre os citados estava André Valadão, que reagiu com veemência em vídeo publicado nas redes sociais, classificando as acusações como “fofoca” e afirmando ser “inadmissível falar da igreja do outro”.
A controvérsia ganhou contornos mais amplos ao se conectar com disputas políticas dentro do campo evangélico. As divergências se estendem desde a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF), até as articulações para a eleição presidencial.
A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) evidenciou uma liderança evangélica menos coesa do que em ciclos anteriores. Embora em 2018 muitos pastores tenham apoiado Geraldo Alckmin, a maioria migrou para Jair Bolsonaro no segundo turno, repetindo o apoio em 2022.
Agora, porém, Flávio Bolsonaro não empolga setores influentes do evangelicalismo. Parte expressiva prefere o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) como cabeça de chapa, com Michelle Bolsonaro como vice. Silas Malafaia já declarou considerar Flávio eleitoralmente frágil, enquanto Damares Alves seguiu caminho oposto, declarando apoio ao senador e prometendo mobilizar fiéis.
O deputado Marco Feliciano (PL-SP) sugeriu publicamente que Flávio busque diálogo com Malafaia, a quem chamou de “voz política mais relevante da nação”. Apesar disso, Feliciano minimizou os conflitos, classificando-os como “pontos isolados”.
Outros líderes admitem, reservadamente, que, se Bolsonaro insistir na candidatura do filho, Tarcísio de Freitas deve disputar a reeleição em São Paulo, deixando o campo presidencial ainda mais indefinido. O bispo Robson Rodovalho, que prestará assistência religiosa a Bolsonaro, afirmou que pretende conversar com Flávio para evitar divisões. “A direita tem que entrar junta”, disse.
Na prática, porém, a unidade tem sido difícil. A indicação de Jorge Messias ao STF aprofundou fissuras. Magno Malta (PL-ES) criticou duramente a nomeação, afirmando que identidade religiosa não equivale a credibilidade ética. Em sentido oposto, o bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, manifestou apoio público ao indicado.
Outro foco de tensão envolve o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), que se aproximou do governo Lula (PT) e criticou Malafaia, sugerindo que o pastor intimida colegas para manter influência.
O episódio envolvendo Damares, Malafaia e Valadão ocorreu na esteira do escândalo que levou Daniel Vorcaro e o Banco Master à CPMI do INSS. Damares citou Valadão e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e então pastor da Lagoinha, posteriormente afastado.
Nos bastidores, há leituras distintas. Alguns veem a postura de Damares como tentativa de “saneamento” do campo evangélico. Outros acusam os envolvidos de promover fogo amigo, enfraquecendo a direita.
O pesquisador André Ítalo Rocha, autor de A Bancada da Bíblia: Uma História de Conversões Políticas, lembra que o atrito entre Damares Alves e Silas Malafaia não é novo. Segundo ele, a tensão remonta a 2018, quando Malafaia apoiava Magno Malta para comandar o então recém-criado Ministério da Família, mas o cargo acabou com Damares, ex-assessora de Malta, movimento interpretado à época como traição.
Com a disputa ganhando contornos públicos e pessoais, a liderança evangélica entra em 2026 fragmentada, apostando que a unidade virá apenas na reta final da corrida eleitoral.
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