Política Internacional
Entenda o papel que o Brasil pode exercer na geopolítica mundial atual, segundo especialistas
Peso econômico, tradição diplomática e posição regional colocam o país como agente de diálogo e estabilidade na América do Sul
17/01/2026
12:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Em um cenário internacional marcado por rivalidade entre grandes potências, enfraquecimento de alianças tradicionais e crescente fragmentação da ordem global, o Brasil pode desempenhar um papel estratégico como agente de diálogo, mediação e estabilidade regional, avaliam especialistas em Relações Internacionais.
A posição geográfica, o peso econômico na América do Sul e a tradição diplomática brasileira conferem ao país capacidade de influência em temas sensíveis, como:
a crise na Venezuela;
a relação com os Estados Unidos;
o fortalecimento do Mercosul e do multilateralismo.
Para a professora Carolina Pedroso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o respeito ao Direito Internacional tornou-se ainda mais relevante em um contexto em que grandes potências passaram a atuar à margem das regras construídas no pós-Segunda Guerra Mundial.
“A Europa também está bastante fragilizada com ações cada vez mais unilaterais, tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos. A Europa perdeu muito protagonismo”, avalia.
Na mesma linha, a pesquisadora Larissa Wachholz, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), destaca que o espaço de atuação do Brasil não está na competição direta com as grandes potências.
“O país não é um polo de poder militar ou tecnológico comparável às grandes potências, mas dispõe de ativos relevantes, como dimensão territorial, peso demográfico, base econômica diversificada e tradição diplomática.”
Segundo ela, em um mundo fragmentado, o Brasil pode atuar como articulador entre diferentes blocos, defendendo o multilateralismo, a reforma das instituições internacionais e soluções negociadas, sem alinhamentos automáticos.
No caso da Venezuela, o Brasil busca se posicionar como interlocutor capaz de reduzir tensões e incentivar o diálogo político. Carolina Pedroso lembra que a diplomacia é indispensável diante da realidade geográfica.
“Em política internacional, a gente não tem amigos, tem parceiros. No caso da Venezuela, isso é evidente: são mais de 2.200 quilômetros de fronteira compartilhada e um intenso fluxo migratório pelo Norte do país.”
Larissa Wachholz reforça que a tradição brasileira de não intervenção e respeito à soberania sustenta a percepção de confiabilidade internacional, mas alerta para os limites práticos:
“O país não pode se colocar como mediador se as partes não têm abertura. Não houve disposição nem por parte de Washington nem por parte de Caracas para um protagonismo maior do Brasil.”
Recentemente, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, chegou a citar o Brasil como peça importante para “proteger a ordem mundial”, diante de ações unilaterais de grandes potências.
Na relação com os Estados Unidos, o Brasil adota uma postura pragmática, que permite diálogo tanto com Washington quanto com países em conflito ou sob sanções norte-americanas.
Para Carolina Pedroso, essa postura é fundamental para a defesa da soberania nacional.
“O Brasil precisa desenvolver com clareza uma estratégia que inclua a defesa da soberania, para não ser alvo de influência mais violenta por parte de qualquer potência.”
Larissa Wachholz acrescenta que o país pode ampliar sua influência por meio do soft power, explorando áreas estratégicas como agronegócio, energia limpa, minerais críticos e clima.
“O Brasil tem condições de exercer liderança nesses campos”, afirma, citando a atuação do país em fóruns como G20, BRICS e a COP30.
No âmbito do Mercosul, o Brasil enxerga o bloco como ferramenta central para ampliar influência e promover estabilidade econômica e política.
Carolina Pedroso destaca que iniciativas como o acordo Mercosul–União Europeia ganham ainda mais relevância nesse contexto.
“Buscar parcerias com países de poder semelhante ao do Brasil é um caminho para que a soberania não seja diretamente violada.”
Larissa Wachholz avalia que os efeitos do acordo serão mais visíveis no médio e longo prazo, com aumento da atratividade do Brasil para investimentos estrangeiros.
“A incorporação de exigências ambientais e regulatórias tende a melhorar a qualidade do produto brasileiro.”
Para os especialistas, o principal desafio do Brasil é transformar seu capital diplomático em resultados concretos, mantendo uma política externa ativa e coerente.
“Não nos interessa uma vizinhança problemática. Quanto mais estáveis, desenvolvidos e prósperos forem os nossos vizinhos, melhor para o Brasil”, resume Carolina Pedroso.
Larissa Wachholz conclui que o Brasil pode ser peça-chave na preservação da estabilidade sul-americana, desde que atue com engajamento consistente, promoção da integração econômica e apoio prático à resolução de conflitos — sem pretensões hegemônicas.
Nesse contexto, o país reafirma sua vocação histórica: dialogar, articular e buscar soluções negociadas em um mundo cada vez mais instável.
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