Política / Justiça
Idas de Bolsonaro ao hospital após prisão não geram grandes manifestações de apoiadores
Especialistas apontam mudança na estratégia do bolsonarismo, com retração das mobilizações de rua e foco em atuação digital
11/01/2026
07:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
As sucessivas idas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao hospital, desde que foi preso por decisão judicial, não têm sido acompanhadas por grandes mobilizações de apoiadores. Mesmo após a queda sofrida na cela da Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília, na última terça-feira (6), as manifestações em frente ao Hospital DF Star permaneceram restritas e com baixa adesão.
Na quarta-feira (7), Bolsonaro foi levado ao hospital para realizar exames que constataram um traumatismo craniano leve. Esta foi a quinta vez, desde agosto de 2025, que o ex-presidente deixou a prisão ou a residência para atendimento médico, sempre sem provocar grandes atos públicos de apoio.
Bolsonaro está em prisão domiciliar desde agosto de 2025, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), e foi transferido para a Superintendência da PF em novembro, após condenação definitiva. Ele cumpre pena de 27 anos e três meses, imposta em 25 de novembro de 2025, por liderar a trama golpista que tentou subverter a ordem democrática no país.
Histórico das idas ao hospital
Desde o início do cumprimento da pena, o ex-presidente realizou diversas saídas para atendimento médico:
18 de agosto de 2025 – Primeira saída após o início da prisão domiciliar, para exames externos.
14 de setembro de 2025 – Procedimento dermatológico para remoção de lesões na pele.
16 de setembro de 2025 – Atendimento de urgência após queda de pressão, crises de soluço e vômito.
24 de dezembro de 2025 – Cirurgia para tratar hérnia inguinal bilateral e procedimentos para bloquear o nervo frênico, a fim de conter crises de soluço.
7 de janeiro de 2026 – Atendimento após queda na cela, com diagnóstico de traumatismo craniano leve.
Mesmo nessas ocasiões, quando há maior possibilidade de o ex-presidente ser visto em público, os atos de apoio têm sido limitados. Na semana mais recente, pouco mais de 30 pessoas se reuniram em frente ao hospital, com bandeiras, orações e mensagens de apoio, mas o grupo se dispersou rapidamente.
Mudança no comportamento da base bolsonarista
Segundo o cientista político Antonio Lavareda, o bolsonarismo mantém uma máquina de mobilização digital altamente eficiente, capaz de gerar engajamento emocional rápido, mas isso não se traduz mais em grandes ações presenciais.
“Esse modelo maximiza a sensação de pertencimento e mobilização simbólica, mas não prepara o militante para ações coletivas mais custosas”, afirma Lavareda.
Ele avalia que a redução das manifestações também reflete a frustração com protestos anteriores, que não produziram efeitos políticos concretos, enfraquecendo a crença de que a presença nas ruas possa influenciar decisões institucionais.
Apesar da retração, o especialista destaca que isso não significa irrelevância do movimento, mas uma mudança defensiva de estratégia, com prioridade à manutenção da influência simbólica e do debate público.
Impacto do 8 de janeiro de 2023
Lavareda associa o recuo das mobilizações às consequências dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, que mudaram o “cálculo de risco” dos apoiadores.
“As manifestações de rua passaram a ser vistas como potencialmente criminalizáveis, dependendo do teor, das faixas, dos cartazes e da liderança envolvida”, explica.
Segundo ele, investigações, prisões e identificação dos participantes tiveram efeito pedagógico. “Hoje, as pessoas sabem que não contam mais com o anonimato apenas por estarem em uma multidão”, conclui.
O cenário indica que, embora Jair Bolsonaro ainda mantenha influência no debate político, sua capacidade de mobilização de rua sofreu um enfraquecimento significativo desde sua condenação e prisão.
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