ARTIGO| Três desejos de uma favelada!
29/09/2020
18:00
PA
Autor: Wilson Aquino* |
A desigualdade socioeconômica no Brasil, lamentavelmente é gigantesca. Mais de 70% da população é assalariada e milhares de famílias vivem com renda abaixo de meio salário mínimo. E nessa guerra pela sobrevivência assistimos diariamente as dificuldades e sacrifícios de pais e mães para conseguir o pão de cada dia.
�? o caso da senhora Ediran R. Passos, uma favelada expulsa recentemente da �??Área do Linhão�?�, no Bairro Noroeste em Campo Grande. Levada com outras quase 100 famílias para uma área pública situada no extremo leste do mesmo bairro com a promessa de que receberiam toda ajuda para morar com dignidade. Foi-lhes prometido inclusive que receberiam kits de materiais de construção para substituir as madeiras, lonas e metais encontrados em lixos e entulhos, e que compunham suas paredes e janelas. Nada disso receberam. Foram iludidas e abandonadas pelo poder público e perdidas de vista por aqueles que antes as ajudavam.
O novo local de morada, recebeu logo o nome de �??Comunidade Aguadinha�?�, uma área sem iluminação pública, sem transporte coletivo e distante há mais de 20 quarteirões da área comercial do Noroeste. �? ali que dona Ediran luta pela sobrevivência de sua família. Mesmo conformada com o isolamento e a distância de sua nova �??casa�?�, ela chora pela quebra das rodas de seu carrinho de mão, que empurra, junto com o marido, para juntar materiais recicláveis de onde tiram seu sustento. Um de seus maiores desejos é o de receber a doação de novas rodas para recuperar sua ferramenta de trabalho.
Com a voz apertada e segurando um choro profundo e desesperador, caminha para dentro de seu barraco de paredes e tetos remendados, para falar de seu segundo objeto de desejo: Um simples fogão. Ela se utiliza de um instrumento que encontrou no lixo, uma espécie de aquecedor elétrico, retirado sabe-se lá de que aparelho. Diante dele mostra como faz para aquecer a plataforma de metal, se utilizando da energia elétrica, com fios descascados nas pontas. Assim ela começa o processo de cozimento dos alimentos. Confessa que nesse trabalho demorado e perigoso já levou fortes choques e teme operá-lo em tempo de chuva, quando as águas invadem a casa pelo chão, teto e paredes.
Em seguida ela se vira para o lado, a menos de dois metros do �??fogão�?� para mostrar onde poderia ficar seu terceiro objeto de desejo, um local improvisado que de longe lembra uma cama.
O drama de dona Ediran e das outras famílias que também vivem em condições sub-humanas nos remetem a inúmeras reflexões. A principal delas é a de que Deus é mesmo grandioso e sábio ao estabelecer como segundo mandamento o de amar ao próximo como a nós mesmo, pois somente com esse espírito podemos ajudar todos aqueles que necessitam.
Mas não pense que dona Ediran se sente uma derrotada, o ser mais sofrido existente na face da Terra, como muita gente que sofre, muitas vezes se acha. Mesmo sem seus 3 objetos de desejo, ela antes de se deitar, eleva as mãos aos céus pelo privilégio que tem de ter esperança e força para poder lutar, mesmo com todas as dificuldades do mundo, pelo pão de cada dia.
Esse mesmo sentimento de gratidão é que falta no espírito e coração de tantos e tantos indivíduos que perambulam por toda Terra. Inclusive daqueles que juntaram conquistas de toda ordem, e que ainda assim ousam se sentir inconformados materialmente e, consequentemente, espiritualmente. Não conseguem valorizar o que são e o que já possuem. Por conta desse inconformismo, entram em depressão e desespero.
Consciente desse mal, agravado por esses tempos modernos e capitalista, que incentivam um consumismo voraz e ilimitado, ensinei meus dois filhos, Nilson Felipe (31) e Maria Ritha (28), quando crianças (9 e 6) a fazer doação de roupas e seus brinquedos usados e mesmo aqueles parcialmente danificados.
Ainda me recordo que quando falei sobre o assunto, eles me questionaram dizendo que nenhuma criança iria querem brinquedos assim. Era a deixa que queria para dar-lhes uma grande lição. Pedi apenas que observassem bem os olhos de todos aqueles presenteados. Fomos a uma comunidade bem pobre, na periferia da cidade e logo quando chegamos, apareceram elas, diversas crianças, atraídas por aqueles 3 personagens com grandes sacolas nas mãos.
Instantes depois os dois estavam distribuindo, de mãos em mãos seus presentes e confirmaram logo que eu estava coberto de razão, pois a alegria das crianças veio acompanhada de gritos de euforia e correria para mostrar a todos o que tinham de tão belo recebido.
A lição lhes serviu muito. Hoje, minha filha, engenheira entre outras formações, junta, de quando em quando, grandes sacolas de roupas e outros utensílios que normalmente poderiam ficar como em outras casas, anos e anos apenas guardados, e sai com eles para doação. Nilson Felipe, técnico em química, também tem um grande coração.
�? esse sentimento que precisa aflorar no espírito e mente de todas as pessoas, em obediência a Deus, que nos manda cuidar e amar o próximo. A esse respeito o Senhor também é direto e objetivo: �??Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira�?� (Lc. 3:11). Se agirmos assim, certamente realizaremos com facilidade os três simples desejos de dona Ediran, essa humilde favelada.
*Jornalista e Professor
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