Campo Grande (MS), Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

Segurança / Política

Diretor da PF critica decisão dos EUA sobre PCC e CV e diz que medida não muda atuação brasileira

Andrei Rodrigues afirma que classificação das facções como terroristas não altera a legislação nacional, mas pode ampliar cooperação internacional

05/06/2026

17:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, classificou como um “equívoco grosseiro” a decisão dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Em entrevista, Andrei afirmou que a medida adotada pelo governo norte-americano não altera a política brasileira de enfrentamento ao crime organizado nem interfere nas investigações conduzidas no país.

Segundo o diretor-geral da PF, uma decisão estrangeira não tem efeito automático sobre a legislação brasileira nem força para modificar a atuação das autoridades nacionais.

“A decisão dos Estados Unidos não tem o condão de alterar a política pública e a legislação brasileira de enfrentamento ao crime organizado. Não existe nenhuma força executória de uma decisão de outro país capaz de mudar algo dentro do Brasil”, afirmou.

Para Andrei Rodrigues, há diferenças técnicas relevantes entre organizações terroristas e facções criminosas ligadas ao narcotráfico. Ele ressaltou que grupos terroristas costumam ter motivações ideológicas, políticas ou religiosas, enquanto facções como PCC e CV atuam com foco econômico e buscam lucro por meio de atividades criminosas.

“As organizações terroristas têm motivações ideológicas, religiosas e objetivos distintos. As facções brasileiras buscam lucro. É um equívoco confundir essas duas realidades porque as estratégias de enfrentamento são diferentes”, disse.

Apesar da crítica à classificação feita pelos Estados Unidos, o diretor-geral da PF afirmou que a medida pode abrir espaço para ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado.

Segundo ele, autoridades norte-americanas poderiam atuar de forma mais efetiva na localização e prisão de foragidos brasileiros em território dos Estados Unidos, no bloqueio de bens usados para lavagem de dinheiro e na recuperação de ativos ligados a facções criminosas.

“Se os Estados Unidos querem enfrentar essas facções, podemos colaborar. Eles podem prender foragidos da Justiça brasileira, bloquear bens de criminosos que utilizam o sistema financeiro norte-americano para lavar dinheiro e ampliar a troca de informações. Existem muitas possibilidades de cooperação”, afirmou.

Andrei destacou que parte das apreensões realizadas pela Polícia Federal já resulta da integração com agências norte-americanas, especialmente o FBI e a DEA.

“Temos uma relação muito boa com o FBI e com a DEA. Muitas operações e apreensões decorrem dessa troca permanente de informações. O fortalecimento dessa parceria é fundamental”, declarou.

O diretor-geral reconheceu, porém, que a nova classificação pode gerar dificuldades burocráticas futuras, a depender da forma como será implementada pelo governo norte-americano.

“Precisamos aguardar para entender como os Estados Unidos vão operacionalizar essa decisão. O que pode haver são embaraços administrativos ou mudanças nas agências responsáveis pela interlocução com o Brasil nesse tema”, explicou.

Andrei também afirmou que o enfrentamento ao crime organizado no Brasil independe da posição adotada por governos estrangeiros. Segundo ele, as facções criminosas atuam há décadas no país e passaram por diferentes governos, o que exige uma estratégia permanente de Estado.

“O enfrentamento ao crime organizado é um trabalho permanente. Recentemente lançamos o Programa Nacional de Enfrentamento ao Crime Organizado, ampliamos investimentos em tecnologia, inteligência e regiões de fronteira. Nossa estratégia permanece exatamente a mesma”, afirmou.

Nos últimos anos, de acordo com o diretor-geral, a Polícia Federal intensificou ações voltadas à descapitalização das organizações criminosas, com bloqueios de patrimônio, recuperação de ativos e apreensões de drogas.

“A nossa posição técnica é muito clara. Continuaremos atuando com firmeza contra o crime organizado, independentemente da classificação adotada por outros países”, concluiu.


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